sábado, 30 de julho de 2011

A alma, a palavra e o algodão doce

Tinha os cabelos grisalhos, olhos negros, era alto, esguio, e conservava ainda certo charme. Andava lentamente,mãos no bolso, observando cada umbral das fachadas antigas da Rua da Aurora. Depois atravessou a rua ,sentou-se em um dos bancos que ladeiam os rios que cortam a cidade, emoldurados por calçadões. Sentou-se e parecia envolvido por uma sinfonia, tão absorto estava em suas contemplações. Observava agora  os poucos transeuntes, e os raros automóveis, que passavam pela avenida naquela dominical manhã recifense. Depois de alguns instantes, retirou do bolso uma caderneta e um lápis grafite – pois é, ainda existem os que usam a preciosa dupla papel e lápis em plena era do Ipod, Iphone, e tantos outros “ais”. Retirou-os do bolso mas não escreveu nada por um bom tempo, continuava na sua observação, como que procurando algo, e o que procurava? Certamente, aquilo que busca, e encontra, a alma do poeta: o belo... a essência bela que ele crê que haja em tudo ,o que há de belo aprisionado em toda e qualquer circunstância, esperando para ser liberto pelas palavras dele... liberta o belo contido até no fato de que “havia uma pedra no meio do caminho.” E o nosso poeta continuava, como um pescador, à postos, alfarrábio na mão, aguardando uma idéia ser fisgada, ou antes fisgá-lo.
Atravessava a rua uma mulher negra, de uns 25 anos, segurando a mão de uma menina, de uns 3 anos, ambas com roupas simples, cabelos crespos, e trançados. O poeta então foi capturado por esta cena, e acompanhava-a atentamente. Um homem vendia algodão doce parado no inicio de uma ponte próxima, a criança olhou para o homem e volveu um olhar “pidão” para a mãe que, entendendo a mensagem silenciosa da pequenina, chamou o vendedor e comprou um daqueles saquinhos inflados, recheado com o róseo algodão doce. A criança abriu rapidamente o saquinho, e parecia provar um manjar turco, tamanha a sua satisfação ao sentir o solver do doce na sua língua. O doce do algodão doce era a sensação que a alma da pequenina precisava naquele momento, e aquela cena era o que a alma do poeta buscava. O poeta sorri, a criança sorri...sorriem não um para o outro, mas ambos para si mesmos,para suas almas momentaneamente saciadas. A mãe e a criança ficam na parada do ônibus, esperam alguns instantes, e a criança mergulhada no seu doce é então conduzida pela mãe para entrar no ônibus que pára, e o poeta absorvido pelo seu dom brinca com as palavras, constrói  com elas a poesia da cena, e nem percebe quando a mãe, a menina e o algodão doce se vão. Ele fica a libertar o belo, e a alimentar a alma com o doce encanto das palavras. Outro ônibus passa, não pára. O poeta continua.

Rebecka Rabêlo,
Recife, 28/03/2011.

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